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sábado, 14 de agosto de 2010

Remember Me de Allen Coulter



Everything you do in life will be insignificant, but it's very important that you do it. - Mahatma Ghandi


Se a maioria de nós não põe em questão a primeira parte da afirmação o mesmo não será verdade quanto à segunda. Que impacto temos nós no mundo que nos rodeia, que fizemos nós hoje que seja assim tão relevante?
Remember Me aborda precisamente esta questão acompanhando a vida de Tyler ( Robert Pattison) e de Ally (Emilie de Ravin) e as relações que cada um tem com a sua família e um com o outro.


Tyler é um jovem taciturno à deriva, sem objectivos definidos que divide o seu tempo entre assistir a aulas na Universidade (apesar de não estar propriamente matriculado) e um trabalho na biblioteca. Após o suicídio do seu irmão Michael, a sua relação com o pai, Charles (Pierce Brosnan) torna-se tensa e agudiza-se sempre que Charles demonstra desinteresse pela sua filha mais nova de quem Tyler é bastante protector. Ally por seu turno é manifestamente mais orientada quanto ao seu futuro e mais responsável que Tyler. É filha de um pai policia super protector (Chris Copper) e quando tinha 11 anos testemunha o assassínio da mãe.

Quis o destino que os caminhos destes dois se cruzassem e que as tragédias familiares de cada um suscitassem no outro um interesse amoroso.


A premissa não tem nada de transcendente, arrisco dizer que dificilmente tem algo de original e aos primeiros minutos do filme só os mais resistentes de nós se vão sentir impelidos a continuar a acompanhar a historia, no entanto à medida que a narrativa avança, à medida que vemos o desenvolver das relações das personagens, sem nos apercebermos de como e porquê já estamos presos a ela e às suas personagens das quais já temos os nosso próprios juízos de valor. Enquanto a história desenvolve também as personagens vão sofrendo transfigurações e as pequenas (grandes) interacções que vão tendo umas com as outras não só as alteram como alteram as percepções que as outras personagens tinham delas. Finalmente o filme tem um final incrível, bem executado, no sentido em que se abstrai de grandes sensacionalismos, conseguindo na sua solenidade ser tocante e arrojado.


Não sendo um mau filme, e asseguro que não é, também não é brilhante e muitas vezes resvala para o sentimentalismo fácil. Muitas cenas do filme ultrapassam a fronteira que separa um filme tocante de um "chick flick", um exemplo descarado é o de que Tyler e Ally se conhecem porque o colega de quarto de Tyler o desafia a engatar Ally para se poderem vingar do seu pai que na noite anterior os havia prendido e, imagine-se, quando Ally descobre cai o Carmo e a Trindade. Se cenas assim resultam num filme como " 10 Coisas que odeio sobre ti" em Remember Me só servem para descrédito de um argumento que se queria verossímil, ainda que o filme se redima no final ao interligar os pequenos eventos das personagens a eventos de maiores proporções, que são transpostos para a esfera pessoal destas personagens e ,por analogia, a qualquer um de nós.


Mas Remember Me tem, felizmente, o mérito de criar personagens extremamente empáticas com as quais nos conseguimos identificar e alia-as a diálogos muito bem conseguidos e credíveis, principalmente entre Ally e Tyler. Apenas o pai de Ally cai demasiado no cliché de pai protector, que aqui é levado quase a um extremo, e que nem a boa prestação de Chris Copper consegue fazer esquecer a falta de originalidade da personagem.


Quanto aos actores é bom ver Robert Pattison a encarnar o papel de Tyler e a provar-nos que tem mais talento do que a personagem de Flash Gordon trasvertido ,que brilha à luz do sol, deixa transparecer. A forma como lida com relações tão opostas como as que Tyler tem com o pai, a irmã e Allie mostra que enquanto actor sabe como encarnar às várias facetas de um personagem. Emilie de Ravin não fica atrás, trazendo vida e uma dose simpática de atrevimento à personagem, e consegue fazer da química do casal o ponto mais atractivo de Remember Me. Uma nota ainda para a excelente prestação de Pierce Brosnan que tem em mãos um personagem difícil que pretende obter de nós um misto de juízos acusatórios e compreensão, conseguidos, diga-se. Quanto a mim, está a um bom papel de se redimir da falta de respeito que foi o "Mamma Mia!".


Remember Me é um bom filme sobre relações, sobre as pequenas grandes coisas, sobre como cada um de nós toca a vida do próximo de formas mais profundas do que a partida julga, sobre como grandes eventos nos marcam a uma escala mais pessoal. Se conseguirem fechar os olhos a momentos descarados de sentimentalismo fácil vale bem o tempo empregue.